O que leva muitas vezes os doentes a procurar o Médico Otorrinolaringologista em primeira instância e só depois recorrer a um especialista em ATM.

A resposta é simples, embriologicamente a articulação temporomandibular e a maior parte do ouvido têm origem no primeiro arco faríngeo originando as estreitas relações nervosas entre o ouvido e articulação temporomandibular.

Estas relações íntimas entre estas estruturas anatómicas (ver Ligamento de Pinto) são uma das causas para existir uma irradiação da dor do ouvido para a ATM e vice-versa.

Uma outra causa bem mais óbvia é a próxima relação entra estas estruturas (ouvido e ATM). Um estalido na ATM pode facilmente ser interpretado pelo doente como um estalido no ouvido e vice-versa. O crepitar dentro da articulação é muitas vezes confundido com um crepitar no ouvido e vice-versa.

A verdade é que seria mais fácil tratar dos ouvidos se a ATM não estivesse tão próxima e vice-versa.

Esta íntima relação entre ouvido e ATM justifica um tratamento multidisciplinar entre ORL e Especialistas em DTM.

Para os mais curiosos, fica a descrição de uma bonita imagem que evidencia as relações nervosas entre a ATM e o ouvido.
1. Do foramen oval emerge o nervo mandibular (com o ramo sensorial e o ramo motor) para formarem o tronco comum do nervo mandibular que tem uma relação estreita com o gânglio ótico (que se situa entre o nervo mandibular e o músculo tensor do palato). Do tronco do nervo mandibular, emerge para enervar a dura máter da fossa craniana média, o nervo espinhoso (passando pelo buraco espinhoso com a artéria meningea média). Emerge também o nervo para o músculo pterigoideu medial, este nervo tem ramificações com o gânglio ótico para inervar o tensor do tímpano e o tensor do véu do palato.

2. Na sua divisão anterior tem três nervos motores e um sensitivo, o nervo massetérico que vai ter o seu trajecto superiormente ao tendão do pterigoideu lateral e inervar o masseter e parte da ATM, emerge ainda o nervo bucal, o nervo do pterigoideu lateral e o nervo para o temporal profundo.

3. Da sua divisão posterior emerge o nervo auriculo temporal, o lingual e o nervo alveolar inferior. Normalmente o nerve emerge com duas raízes que abraçam a artéria meningea média e tem o seu trajecto medial ao côndilo emitindo raízes nervosas para a cápsula articular e ramos terminais para o músculo temporal. O nervo auriculo temporal recebe ramos do gânglio ótico com fibras do nervo glossofaríngeo (ramos do nervo timpanico – pode ver-se na imagem a vermelho). O nervo auriculo temporal ramifica-se em 3 ramos principais: ramo auricular que vai enervar a região do tragus, tecto e parede anterior do meato auditivo e a membrana cuticular da membrana timpanica, ramos temporais superficiais que inervam a pele da região temporal e ramos para a ATM.

4. O nervo corda do timpano, que é um ramo do nervo facial, emerge após a emergência do nervo facial do foramen estilomastoideu, atravessa a membrana timpânica (entre a sua camada fibrosa e mucosa) entrando depois na fissura petrotimpanica e emergindo no nervo lingual. No seu trajecto o nervo corda do timpano emite raízes nervosas para o nervo auriculo temporal, para a ATM, para o gânglio ótico, para o tubo auditivo e para o tensor do palato. Esta comunicação com o gânglio ótico é uma via alternativa para o paladar dos 2/3 ant da língua.

5. O gânglio ótico esta localizado na fossa infra temporal, funcionalmente faz parte do nervo glossofaringeo sendo que em termos topográficos esta associado ao nervo mandibular.

Nestes 5 pontos ficou presente a estreita relação nervosa que existe entre a articulação temporomandibular e o ouvido.